Publicado originalmente na revista Rhetorica.
Na metade de 2009, conheci um jornalista especializado em artes plásticas que gostaria de mostrar não suas críticas, mas seus trabalhos artísticos. O que de relance me pareceu algo um pouco contraditório, mostrou-se extremamente coerente quando vi suas obras. Bruno Moreschi já escreveu sobre artistas plásticos conhecidos como Nuno Ramos, estudou História da Arte na Universidade da Califórnia e hoje é aluno da pós-graduação em artes visuais da Universidade de São Paulo (USP). Esse exercício crítico que poderia brecar suas intenções artísticas parece na verdade alimentá-lo.
Desde 2006, Moreschi estuda atentamente o papel do retrato de paisagem na História da Arte. Desde o início de suas pesquisas, iniciadas em Los Angeles, sua intenção era estudar o tema de forma acadêmica, mas também criar obras de arte como consequências desses estudos mais teóricos.
Baseado em seus estudos que continuam até hoje e que é tema de seu projeto de mestrado, Moreschi criou três linhas de trabalhos artísticos ligados ao pensar artístico da paisagem – aqui compreendia como as cenas ligadas a natureza como montanhas, rios, árvores etc.
Moreschi costuma pintar montanhas em telas convencionais. Num dado momento do trabalho, o artista rasga a tela. Os rasgos aleatórios do tecido orientam o formato da montanha em questão. Resta ao artista apenas delinear seus contornos com um branco característico de suas pinturas.
Outra série de obras do artista consiste num processo ainda mais detalhado. Com uma fina agulha, Moreschi produz um minúsculo furo em uma tela branca. Em seguida, ele corta a cerda de um pincel. Esse filete é colocado nesse buraco da tela. Surpresa visual: a tela agora parece conter um pelo de um animal em sua superfície branca. Como uma espécie de provocação, Moreschi pinta apenas o pelo, jamais a tela. Numa visão mais óbvio, qualquer um iria concluir agora que Moreschi quis brincar com a questão da pintura e pintar não a tela, mas sim, parte do pincel que deveria pintá-la.
Essa, porém, é apenas uma primeira visão despertada por esse trabalho. Além de expor essas telas, Moreschi leva-as num estúdio fotográfico e produz com ajuda do fotógrafo Renan Rêgo fotos em zoom das cerdas de pincel enfiadas na tela. Os resultam impressionante: a fotografia é de pinheiros numa vasta planície branca, provavelmente cheia de neve.
Moreschi poderia fazer só isso e já seria um artista que mereceria um olhar atento a critica especializada. Sua obra até então mais apresentada, porém, não são as telas rasgadas, tampouco as cerdas de pincel nas telas. São seus desenhos minimalistas de paisagens
Para produzi-los, Moreschi utiliza sempre nanquim e canetas aquarelas – costumeiramente usadas para desenhos de moda. Seu suporte é sempre um papel na vertical que imita a textura da casca de ovo. Nessa textura pouco comum, Moreschi cria uma lei geral que rege suas paisagens. As poucas manchas de azul referem-se a água ou céu, o verde a florestas e folhas e o salmão a montanhas. O que pode parecer apenas algo simples é na verdade um trabalho que consegue unir uma simplicidade absurda de escolhas artísticas (poucas linhas e cor) com um poder visual impactante.
Poucos são os jovens artistas que costumam me impressionar. Moreschi é certamente um deles. Com exposições marcadas para Bulgária em novembro, vamos conhecer seus trabalhos. Sorte nossa.