segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Nanquin nas montanhas


Alguns cinco minutos conversando com Bruno Moreschi, numa entrevista que originou outro artigo meu, publicando na Rhetorica.
CM: A primeira coisa que notei foi o espaço infinito, inundando a tela. A princípio se parece uma grande respiração, que coexiste no trabalho como também uma cegueira branca, que sufoca, como ar rarefeito, como em Nevoeiro. Foi intencional este tipo de ambiguidade?

5 minutos
17:03 Bruno: Bom, tudo é intencional e não é ao mesmo tempo, certo? Não consigo confirmar se desde início minha intenção era deixar esse tal "infinito" que você sugere. Mas conforme fui reduzindo a quantidade de linhas e cores, achei que os trabalhos seguiam uma relação que nunca achei que seria proporcional. Quanto mais simples, mais impactante visualmente me parecia. Não estou querendo bancar o louco e afirmar que esses desenhos são um choque visual a quem os vê. Mesmo assim, acho que eles sugerem mais coisa quando menos elementos estão na cena. Foi então que passei a enxergar algo óbvio: a sugestão é inerente ao vazio, ela nasce de algo essencialmente não concreto. Essa história me faz lembrar de um desenho que fiz, gostei e achei que tinha ficado doido quando o revi.
17:05
CM: Que desenho era esse?
17:10

É só um risco de nanquim no papel. Nada mais do que isso. O formato lembra parte de uma montanha, mas também várias outras coisas. Gostei muito do resultado, mas confesso que fiquei temoroso de me satisfazer só com um risco. Conforme fui mostrando meus trabalhos, muitos apontavam esse trabalho como o preferido. Percebi então o que deixa ele tão interessante. Era justamente a falta de elementos para alguém não gostar daquele trabalho. Costumo falar que ninguém pode ser capaz de odiar uma folha em branco. O desenho que falei agora ficou com o título Aquela que se basta.
17:14 eu: Notei as fraturas: não sei dizer se fico dentro das montanhas olhando o céu pelas rachaduras ou por cima delas. Acho que em ambos os espaços.
17:15 Essa intencionalidade do vazio dá mesmo espaço para o receptor criar. Outras artes trazem esta característica. Você gostaria de citar influências? É uma pergunta clássica, mas me deixou curiosa.

5 minutos
17:20 Bruno: Seria reduzir demais eu citar um ou outro artista, mas estamos numa entrevista, não? Portanto, já estamos reduzindo. Gosto dos desenhos de Mira Schendel e a influência está óbvia nos desenhos e de gente como Turner. Já Duchamp não é influência. Ele está numa categoria acima. Ele é coautor de praticamente todas as obras contemporâneas que realmente gosto. Um coautor no sentido de que esse cara criou uma coisa que não dá para fugir. Resta-nos ficarmos só repetindo suas obras em outras roupagens. Mas veja bem, não estou falando do artista Duchamp. Estou falando do mito, entende?
17:21 CM: Sim, como impossível não citar Warhol em qualquer comercialização da arte.




17:23

Bruno: Exato, mas não vamos ficar falando de nomes. Eu nem sei se esses caras de fato existiram. Haha.

CM: Além do traço, você usa uma paleta reduzida de cores. Novamente, menos fala mais. Mas noto uma dualidade carnal e espiritual na escolha do azul e do tom róseo. Você pode falar um pouco das cores, já que falamos dos traços?

5 minutos
17:28 Bruno: Nunca pensei nessa questão carnal do rosa e do espiritual para azul. Pode até ser. Uma coisa, porém, é importante para mim. A escolha e uso limitado das cores de uma maneira que uma determinada cor significa sempre a mesma coisa nos desenhos. Vou te dar os exemplos: o rosa ou salmão é sempre pensando como montanha, o azul como céu ou água e o verde como floresta ou folha. É isso e ponto final. De maneira geral, os desenhos simplesmente trocam essas relações e o formato do traço - o que já é algo que tende ao infinito de opções. Além disso, há a questão do formato. Meus desenhos são quase sempre com a altura maior do que o comprimento. Não em pergunte o motivo, mas acho que nunca consegui fazer um desenho que gostasse mudando esse padrão da folha.
17:29 Aliás, porque será que nunca consegui?

O Simples e o Impacto


Publicado originalmente na revista Rhetorica.

Na metade de 2009, conheci um jornalista especializado em artes plásticas que gostaria de mostrar não suas críticas, mas seus trabalhos artísticos. O que de relance me pareceu algo um pouco contraditório, mostrou-se extremamente coerente quando vi suas obras. Bruno Moreschi já escreveu sobre artistas plásticos conhecidos como Nuno Ramos, estudou História da Arte na Universidade da Califórnia e hoje é aluno da pós-graduação em artes visuais da Universidade de São Paulo (USP). Esse exercício crítico que poderia brecar suas intenções artísticas parece na verdade alimentá-lo.

Desde 2006, Moreschi estuda atentamente o papel do retrato de paisagem na História da Arte. Desde o início de suas pesquisas, iniciadas em Los Angeles, sua intenção era estudar o tema de forma acadêmica, mas também criar obras de arte como consequências desses estudos mais teóricos.

Baseado em seus estudos que continuam até hoje e que é tema de seu projeto de mestrado, Moreschi criou três linhas de trabalhos artísticos ligados ao pensar artístico da paisagem – aqui compreendia como as cenas ligadas a natureza como montanhas, rios, árvores etc.

Moreschi costuma pintar montanhas em telas convencionais. Num dado momento do trabalho, o artista rasga a tela. Os rasgos aleatórios do tecido orientam o formato da montanha em questão. Resta ao artista apenas delinear seus contornos com um branco característico de suas pinturas.

Outra série de obras do artista consiste num processo ainda mais detalhado. Com uma fina agulha, Moreschi produz um minúsculo furo em uma tela branca. Em seguida, ele corta a cerda de um pincel. Esse filete é colocado nesse buraco da tela. Surpresa visual: a tela agora parece conter um pelo de um animal em sua superfície branca. Como uma espécie de provocação, Moreschi pinta apenas o pelo, jamais a tela. Numa visão mais óbvio, qualquer um iria concluir agora que Moreschi quis brincar com a questão da pintura e pintar não a tela, mas sim, parte do pincel que deveria pintá-la.

Essa, porém, é apenas uma primeira visão despertada por esse trabalho. Além de expor essas telas, Moreschi leva-as num estúdio fotográfico e produz com ajuda do fotógrafo Renan Rêgo fotos em zoom das cerdas de pincel enfiadas na tela. Os resultam impressionante: a fotografia é de pinheiros numa vasta planície branca, provavelmente cheia de neve.

Moreschi poderia fazer só isso e já seria um artista que mereceria um olhar atento a critica especializada. Sua obra até então mais apresentada, porém, não são as telas rasgadas, tampouco as cerdas de pincel nas telas. São seus desenhos minimalistas de paisagens

Para produzi-los, Moreschi utiliza sempre nanquim e canetas aquarelas – costumeiramente usadas para desenhos de moda. Seu suporte é sempre um papel na vertical que imita a textura da casca de ovo. Nessa textura pouco comum, Moreschi cria uma lei geral que rege suas paisagens. As poucas manchas de azul referem-se a água ou céu, o verde a florestas e folhas e o salmão a montanhas. O que pode parecer apenas algo simples é na verdade um trabalho que consegue unir uma simplicidade absurda de escolhas artísticas (poucas linhas e cor) com um poder visual impactante.

Poucos são os jovens artistas que costumam me impressionar. Moreschi é certamente um deles. Com exposições marcadas para Bulgária em novembro, vamos conhecer seus trabalhos. Sorte nossa.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Venice Biennale

I just spent ten days in Venice and saw 58 of the 64 pavillions and
collateral exhibitions which form part of the 53rd Venice Biennale,
“Making Worlds” curated by Daniel Birnbaum. By far the most disturbing
installation was Teresa Margolles' fabric soaked with the blood of
victims of massacres in northern Mexico hanging on the walls of a
palazza. Iceland, almost unsurprisingly addressed the strain that the
financial crisis has put on the artworld with 'The End.' The most
intriguing and inspiring was by far the Ukraine pavillion in the
Palazzo Papadopoli. 'The Collectors' in the Nordic Pavillion was
outstanding and a couple of unexpected surprises included the Latvian
'Fragile Nature' installation and controversial works from the largely
unrecognised nation of Kurdistan.



Theresa Margolles - What Else Could We Talk About (MEXICO)


Ragnar Kjartansson - The End (ICELAND)


Miks Mitrevics - Fragile Nature (LATVIA)


Illya Chichkan, Mihara Yasuhiro and Ogata Kinichi - Steppes of Dreamers (UKRAINE)


Gareth Kennedy - 167 (IRELAND)


Elmgreen & Dragset - The Collectors (DANISH AND NORDIC)

sábado, 19 de setembro de 2009

mouchette.org/


It would be unfair to say that since I came to know Mouchette, a couple of years ago, I've always wondered who's the artist behind the portrait. That wouldn't be the point and the author would be raging and yelling at the misinterpretation of the mystery he constructed. I'm not even going for the erotic effect of a menu "browse me" right at the Mons pubis, or the whole appeal Mouchette has to its viewers; the entangling effect, however, is not quite this one - perhaps I was more puzzled with the nature of the character, crystallized on the screen as a living robot: forever 13 years old, forever dealing with random facts and conflicts, on the pink window to that garden. And then, once in three, six or even 15 months, you receive an e-mail from Mouchette, nagging the grown ups for attention, like a cybernetic haunting that will always live on that site.

Color me Mueck


Ron Mueck – Australian Hyperrealist Sculptor - Funny video clips are a click away

Lately


I've been thinking a lot about German cinema. What happened to the big big ones? Lang? Even Leni? The last three great films from Germany... Lola Rennt? Goobye, Lenin? And Das Leben der Anderen, this one, yes, great. But besides that we have some teenage-like films, witty and charismatic, at the most. I just don't get it - some friends from Berlin told me there are plenty of good films on German TV, but then again, it's TV, and why won't they just the big wall and get to the world - even popularity along the Internet? Would the FLUX be so that no one can get to know it? Oh, and there's also Die Falscher. I liked that one, too.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Maurizio Cattelan

It was a square in Venice, just after an art exhibit relatively busy (no, it was in the Biennale, although I have gone the last two and I stuffed the folder as I could, save me the sculptors who allow this kind of satisfaction and also thanks to not need a boyfriend-manager for that, yes, say like, talk on the blog, who is my client know I am, and no big deal, just think grace), I saw Cattelan surrounded by a hundred quasi-papparazzi, including a reporter with absolutely no idea who spoke more than asked - that is, I saw Cattelan, but I talked to the animated fifty minutes was an agent of six or seven artists in the exhibition, Murci, who took a coffee Spresso that made me buy two pounds of bringing Charter D'Oro to Brazil, soon after. They love Brazil. They love the Brazilians love soccer, love the Brazilians. We speak of the Pope. And I, just to quarrel, I quoted the Zeffirelli, the fascist: the Pope? Wait, the good or the bad one? Yeah, right. The other was larger than life, in fact, I do not know if a German academic shoud be a pope, too - and let's stop here....

Foi numa praça em Veneza, logo depois de uma exibição de arte relativamente concorrida (não, não era na Bienalle, apesar de eu ter ido às duas últimas e me empanturrado de pasta o quanto pude; salve os escultores que me possibilitam esse tipo de satisfação e também graças a não precisar de namorado-empresário pra isso; sim, falo assim, falo no blog, quem é meu cliente sabe como sou, e não é nada demais, só acho graça), que vi o Cattelan rodeado por uma centena de quasi-papparazzi, incluindo uma repórter absolutamente sem noção que falava mais que perguntava - é isso, eu vi o Cattelan, mas com quem conversei por animados cinquenta minutos foi um agente de seis ou sete artistas na exposição, Murci, com quem tomei um café spresso que me fez comprar trazer dois quilos de Carta D'Oro pro Brasil, logo em seguida. Eles adoram o Brasil. Adoram os brasileiros, adoram o futebol, adoram as brasileiras. Falamos do Papa. E eu, só pra polemizar, citei o Zefirelli, the fascist: o Papa? Péra, o bom ou o ruim? Pois é, né. O outro era larger than life, de fato, eu também não sei se um acadêmico alemão deve ser Papa - e vamos parar por aqui.